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sábado, 19 de novembro de 2011

Rezas

por Ana Chiara


Só muita reza
Pra nos descolar dos CHATOS!
e de nossa chatice íntima,
daquilo que nos martela.
do que nós cola, lama, lamela,.
Nossa Senhora dos Absurdos,
livrai-nos da fumaça pegajosa
dos fatos e dos chatos.
Protegei-nos da queda
no chão do real
Nem Bataille, nem os acéfalos
nem DADA
nem Raúl Antelo
nos tiram de nossa ilha infernal
Nossa Senhora Absurda,
Livrai-nos do nosso mal
Vida que segue.;.



Prece de São Paulo

Faz sol faz sol
oferto meu corpo
à feroz primavera de Rimbaud
a enxergar a escrita da mudança
aonde vai dar.


Reza de Floripa

dia estranho
vento frio zunindo
um homem tenebroso
sete vezes sete
vezes
grita
sol
solidao
na ilha
minha filha



Nossa Senhora da Alegria

Nossa Senhora da Alegria, Mãe amada, Consolo e Esperança, acolhe-me em teu manto. Soprai em meu coração a SUAVE ALEGRIA e a compreensão de todas as coisas. Preenche meu coração ansioso com o júbilo da aceitação da vida mínima, das cores do dia e da sombra da noite. Fortalecei as fibras do meu coração para que eu viva, a cada dia, aquele dia, sem mágoas do passado e com esperanças no futuro. Embalai-me com os cânticos angélicos quando eu fraquejar. Não permita que a tristeza me impeça os movimentos, nem o desânimo ate meus pés. Mantém vivas, em minha alma, a fé no que virá e a gratidão pelo que já vivi.. Dai-me contentamento, bom humor, vivacidade, exultação, glória e gozo de cada momento vivido.



Nossa Senhora do Desterro


Deixa que eu vá
cada vez mais
pra longe de mim.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Poemas do poço

por Ana Chiara

(Este poema vai pra vc. com um sorriso)


Do fundo do poço,
meu amigo,
saltam novos
os melhores poemas.

os bororo crianças
poemas nascentes
de antes
os poemas do poço.

No mirante
do depois
os azuis
do Azul maior,
sem corrigir os fatos...


Ana Chiara 12/09/2011

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A kiss

por Ana Chiara

O rio parado
interrompe o movimento
fluido das horas do dia
nada se move

três cadelinhas irritantes
Pretinha e duas sem batismo

um canarinho beija o espelho
retrovisor
pensa ter encontrado a alma
gêmea
(arrebenta o peito de cantar)

arretristezas grudadas
chovidinhas.

domingo, 31/07/2011

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Poemas de Ana Chiara

MÁQUINA DE ABRAÇAR

Também cansa o abraço
O braço te aperta
O laço me sufoca

Misturado o braço
Às coisas físicas do mundo
Teme perder o encanto

O abraço, no entanto,
Instabilidade do músculo
Sem controle,

Sem paixão,
Coisa pouca...
Um pênis morto.




INÉRCIA

Enfrento tua resistência
Inerte horizontal.




OS MAQUINISMOS DO INCONSCIENTE

Exaurido Inconsciente
Mudo falo flácido
Abandona a carcaça

Livre a borboleta
Libido solta
Lábios leves


Metáforas azuis
Flores da ira
Colorem a inebriante manhã.



UM HOMEM SEM PAU

Por ser belo, coisa gosma
Baba, barba, larva
Um homem sem pau
Não pensa,
descansa de pensar.


Não fere, não rasga.
Escorrega
Se perde aos poucos
meio à bruma
Do rio pela manhã.

Um homem sem pau
Sai sem entrar.

ana, nov/2009

domingo, 23 de janeiro de 2011

por Ana Chiara



Todos os dias ela sai

Bate a porta atrás de si



Os pés afundados na água

A canela segue o movimento do pé



Arrasta um peixe no calcanhar

Abre e fecha a boca

Meio sem ar.



Caminha



Volta no fim da tarde

Exausta.



No dia seguinte

Precisa abrir outras portas e janelas.





Ana Chiara, 23/01/2011

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Arquivo morto (como enterrar uma década)

por Ana Chiara

Um brinco de Clarice
Um retrato de Caio Fernando
Minhas imagens
Quase todas
Quase toda
Minha biografia
Em flashes
Fotos
& fatos

Boa Samaritana
Madre Teresa
Mamãezinha
 Pai de todos
  Fura bolo
       Um mindinho
               Mentirinhas
                     cariocas

Pragmatismos
Arroubos
Roubos...
&
Setas

Caixa preta vazia
Buraco onde se esconde

Nome do amor
Em vão
Livro aberto
A Teus Pés
Lirismo emperrado
Frases de efeito
Sedução e
Baratas


Treinamento para gueixa
(branco sobre branco)
Boca mínima
Flor mínima
(cria asas na janela
do táxi).

Coração
         Mínimo
                          Migalhas

Esperas
Esferas
Estratosfera
Ela, uma fera...

Manifestos
Segredo a
Traduzir.
Dois nomes
sob camisa de seda bege
(perfeitamente escolhida para a personagem).
Broche de sangue vermelho
Singela jóia.

El primer nombre
Es el que le dieron sus padres
Ey el segundo el que le dio
La mala vida.


Pagar o preço
No analista
Ele lixa as unhas?
Se lixa?
Ouvidos moucos
Ouvidos tradutores
Velho impasse:
Get off?

Tropeços
Joelhos arranhados
Pés no podólogo
Coração neófito,
pedófilo, profissional,
Minha linda.


Miolo:
Descida aos infernos.

Caos, acalma-te!

Vida intransitável
Mordidas emocionais
Sentimentos natimortos.
Vicio
Dos laços de família.

10 anos escorreram
A mãe doente.
tiróide, glândula traiçoeira.

Verdades absolutas
Anacronismos

(fabulação: máquina de fabricar de gigantes)

Fio da meada
Nó de peito,
Nota dó.

Viroses
          escandinavas
Infecções
          portuguesas
Síncopes
           paulistanas.

Essa guerra?
dentro
      fora, baby.

Balas perdidas
Bazucas ultrapassadas
Fogo Amigo.
Incêndio
Vão

Canto de um cisne
Galo na madrugada
Animalzinho dopado
De que se defende?

Leões, brasões de família.
Teclados sem interrogações
Um toque, dois toques,
Coração,
A vida planejada gota a gota
Esgota.

(Enterro desculpas
culpas)

DESCENAR
Sem pianos.

Amigos virtuais
Inimigos públicos,
Vida privada
Na latrina.

UMA BALEIA
UM HIPOPÓTAMO
UMA TARTAGURA
olhos mínimos olham.
este mergulho
fundo
sem fundo.

Arrepio
uma coruja
decapitada.

Naftalina
Mordidas
Tapas
Mordidas
Tapas
Murro no nariz
Poesia brutal
Poemario.

Babas
Línguas, dentes,
Alvéolos
arrancados
num beijo- ferida.

Muco grudado
No intestino
Catarro grudado
No cérebro
Nada na Vagina
Limpa!

No centro de tudo
Reside o SOL
Indústria solar
Sagitário
Setas

Gavetas abertas
Coração aberto
Corpo deserto
Década passada
Sepultada
Bobagens zeradas
Mergulho a cauda
Na água.


O lixo da
Velha festa
Enterro
Ossos.

Fênix
Na cidade
Novos deuses na chuva
Nave sem tripulação,
Retorno a Terra.


 Ana chiara, 14/12/2010

Voz erber em off:

agora ela caminha de mãos dadas com o que resta dela mesma em dezembro depois de "não há regras" e depois de "tudo é regra: (retirada do fundo falso e cintilante de um arquivo de morto ela ainda respira)
ela sabe quem. e tudo está perdido. ela sabe que nem tudo se perdeu ou se perderá. ela caminha sobre a plataforma em direção ao trem, o vidro sujo não incomoda, a paisagem correndo por trás seria: "o último suspiro da bailarina sobre fundo negro ou: os quatro elementos da alegria”
ela está tão feliz que nem se lembra dos cigarros. ela está tão feliz que só pensa nas grandes ondas prateadas. um lugar vazio, aqui perto.

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o moço dos correios tocou faz uns dez minutos, acho que se perdeu no pátio (muitas portas, tipo: viagem aos Pirineus, ou: realismo sentencioso, ou, atenção: jardim de espelhos sem narciso. TALVEZ ele agora e para sempre uniformizado, adormecido na neve do seu lindo arquivo morto.
o astronauta russo entenderia. Jules Laforgue entenderia.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010


por Ana Chiara                                                                    
                                                            




        
                  
                                                                     D. Flor
                                                                     agora
                                                                     sabe
                                                                  nem Teodoro,

                                                                  nem Vadinho.
                                                         Vênus em sua bacia sopra
                                                                   novo e verde
                                                                       enredo





Ana
18/11/10

domingo, 7 de novembro de 2010

Emblemas do Corpo 1

por Ana Chiara

Sonhou c´Óxum
Oxunzinha dourada
Entre nuvens.

Recado selado
de amor
Emblema lésbico

Desejo fervoroso
Delicadeza
Devoção

Voltou a dormir
...




Ana
7/11/10

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Assim uma ponte

Por Ana Chiara


Ser atravessado por uma ponte

a ponte te atravessa em passos lentos, duas margens, sol caindo.

Monumentos passam pelo teu corpo, estátuas muito antigas, preces, línguas, teu ouvido amplia os pedidos.

os passos dos amantes todos pisam tua carne...

Também os sussurros, os beijos, os abraços,

E naufrágios, afogamentos, assassinatos, suicídios...

Todos num único ponto parado cortam o céu azul, roxo, lilás

de través no teu corpo, como espada,

Como trânsitos... tudo mais parado, o tempo, a vontade, a vida.

Só, a ponte atravessa a cidade de um lado a outro, passeio incansável, noite anunciada.

Ar de outono

Assim uma ponte.



25/10/2010

O crime da Professora de matemática

Por Ana Chiara


Ela troca sonhos por seios
Troca o marido por uma aluna
Toca a cintura da outra
Sai da toca
Se troca por um outro escondido
Fenda fechada aberta
Ferida do corpo.
Ela se toca da vida vivida
Entre números e equações
Pauzinhos de contar
Um ábaco logo ali embaixo.
Ela troca um beijo
Pelo desejo de uma boca flor.
Ela cometeu o crime
Da matemática professora
De sinais onde menos é mais
Alegria no corpo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Ouro de tolo (poema do fundo do mar)

Por Ana Chiara





O mundo se comporta

bem num dia,

mal no outro.




Anos setenta, momentos ficcionais,

sol tatuado no peito do astro do rock,

dói demais o olho.




Arar a onda brega

dos impossíveis

censos do fundo do mar.

Lulas, siris, dragões, animais

de invenção,

ouriços espetam a garganta.




A poesia deste instante, querido poeta, põe a mochila nas costas,

viaja.






06/10/10

domingo, 3 de outubro de 2010

Margem de erro

Por Ana Chiara

 

Fico aqui nesta margem,
do erro.
Arranco-te dali,
amoreira,
árvore sem raízes,
e te planto no mar.

Fico à margem do erro,
nenhuma segurança,
seguro nos juncos
soltos,
cabelos infotografáveis.

Juro sempre
nunca mais.
Tardo nas coisas, ardo
no erro.




03/10/10

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Poemas do descolamento

por Ana Chiara



(Iracema Revisitada, últimos capítulos)

Capítulo XXV

Martim,
olhos saciados, enjôo.
Quem ceou, ceifou,
partiu.
Na lagoa, debalde,
sapo canta seu canto.

A morena ,
nem tão virgem,
nem tão morena,
arrasta um monte
sua mágoa,
inda cá,
cantava no peito
o sabiá.


Capítulo XXVI

Mecejana :
desinência ana
(ação de fazer)
lugar do abandono.

Jandaia aos gritos:
nem pátria, nem amor.
Desventurosa.
Desatino, vida a dois.

Dali não passa,
goiamum sai de fasto.
Flor de maracujá
-no peito guarda-
toma banho na saudade.



Capítulo XXVIII

Interlúdio
fere espinho pixuna
ciúme na garganta.

Ele, lábio seco para o amor,
beijo morno e áspero.
Ela , sem alegria,
Sentença de morte, profecia,
Abati, árvore sombria.


 Capítulo XXIX

Dilata-se a ausência.
Ela morde o pó da tristeza,
seta cravada no chão.

Ele combate inimigos, invisíveis.
Cavaleiro da triste figura
canto guerreiro
no festim da vitória,
ela, no canto.

Enquanto, encanto!
Nos campos da Porangaba:
bebê sem pai,
sem pátrio poder,
a pátria  nasce.


Capítulo XXX

A indígena pare um Brasil
Filho da dor, vampiro d´alma.

Mãe gentil, viúva solitária,
pai e mãe, chefe de família,
cabeça, tronco e mamas,
tetas gordas de leite e mel,
golfadas azedas do filho na cara,
há três sóis caminha.

Morta para o pai, filha sem mãe,
A morena, a mísera esposa,
lábios suspirosos,
não despede a lembrança,
aferrada à fantasia,
presa ainda
na porcaria.

Gritos da jandaia, choro infantil,
Serve peitos aos cachorrinhos,
leite escasso, sangue fraco,
esguicha, poreja, alimenta
com fracas esperanças
toda a nação.

Descamba o sol.



Capítulo final reescrito:

Iracema descola,
abre asas, decola
-flor do campo, linda flor-
topless, volta do banho,
brilham gotas,
beijos do sol.

Emudecida nos lábios
amor é apenas palavra decolando
 (descolando)
com as jandaias para o anil.


Iracema, heroína século XXI,
no metrô, olha pra frente, canta um rap:
tudo passa sobre a face da terra, me’rmão...
fila anda,
    passa um fax,
               um   fiat lux!






1º de setembro de 2010

Homens mínimos

por Ana Chiara



Homens mínimos tropeçam na ilusão,
tropeçam nos pés, trôpegos.

Homens mínimos, espetáculo ilusório.
lamela colada ao rosto.

Homens mínimos demais quando dormem.
Evidentes no escuro. A cama intacta.

Mínimos, iscas infraleves. Hipostasiam o real faltoso.

Homens mínimos deslocam-se no desejo como baratas tontas.

Microscópicos, adiam o inevitável bater de asas do dia.

Infantis, falam demais. Seduzem a Língua.

Mimetizam tamanduás-bandeira comem formigas, tartamudeiam.

Ágeis, às vezes engraçados, vorazes, voláteis, evaporam-se.

Saem deixar rastros na pele,

São favas contadas.




11 /09/10

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Para você que não me entendeu



por Ana Chiara


Para você que não me entendeu


Hoje vento de agosto dissolve
céu com nuvens.
Filmo teoria
do amor com belos finais.
Imagem : Rosenbud,
The End grafado por cima.

O mundo gira
isso é gira.

Mapas, planos de ser feliz,
casas de vila, janelas
Saturno fecha porta
Atrás de si, de mim, de ti.

Viagem recomeça
Europa - pernas abertas -
por Lisboa e Praga.
Vida abre à margem do Tejo,
do rio Vltava, sulco novo,
nova ruga, talvez
não voltava, Amor,
esquecia.



05/08/10

Pensamento de adoção

por Ana Chiara


Penso no Kim e na mãe numa jaula.
Penso em mim numa jaula.
Penso em ti, Andrômaca, exilada.
Penso na gataria solta.
Penso que tu não me adotaste.
Eu não te adoto.
Antídoto.

Penso no filho, na filha.
Penso no Gato
Félix infenso a germes,
à gendarmerie.


Penso no amor
-esgotada-
Penso em mim.




06/09/010

sábado, 4 de setembro de 2010

Poemas da viagem (escritos entre fevereiro e março de 2008)

por Ana Chiara




"O corpo é tecido de laços de sangue e de carne em demasia, ele resiste a essa desfiguração do espaço familiar na anamorfose da viagem". Jean Baudrillard


I

Atravessa a língua
carta do corpo
ao coração.
Texto cândido do poeta,
arcada dentária cáries palato.

Aviso de trem
próxima parada
onde salto
pulo fora.
Estação Difícil.
Começo
outra viagem no tempo.


II

dias em alto mar
alimentos salgados
sem água potável
pilhagem sob bandeiras inimigas
depois...um istmo.


III

Beija-flor parado
tremor de asas
também viaja ,
suga o mel da alegria
por deslocamentos mínimos.


IV

acupuntura

Agulhas
Viagem no fluxo do
sangue
ao cotovelo
dores se dissolvem
mais agudas.


V

Travessão entre a partida
E a chegada
No tempo
Demora em aeroportos
Tumulto na alfândega
Passaporte vencido
Bagagem extraviada
Rodoviária cheia
Cancela fechada
Pinguela caída
Ribeirões transbor-
dantes
antes agora
do que dantes
destarte
tarde
nunca mais.


VI

Viagem curta
Saída rápida do eu,
My self, moi-même...
Ir até a esquina
Espiar o movimento
Os guris, as gurias
Pássaros e macacos
Entre os galhos
Nas árvores do Leblon
Caules, raízes no ar.
Todo movimento leve
Papéis picados
Restos
Nada se deposita no fundo.
Viajar curtamente
Entre mim e a outra
Do outro lado
Desta mesma rua.


VII

Viagem à Fazenda

Tudo isso aqui
É meu, é teu, nosso...
O gesto abarca o verde
Meus irmãos
Dois homens feitos
Dois muros
O rio lá embaixo
memória
pedras
barulhos
barriga de nossa mãe
o pai se foi discreto
um sem bigode, outro e
um outro ainda além
de nós.
Silêncio, língua presa
A viagem é sem volta.


VIII

A filha em L.A
O outro em S.P
A mãe viaja
Com Ella
Siglas
Desenhos.
Agulhadas

Tatua nas costas
Esparadrapo em rede
Tudo muito sensível
Viagens no cabresto
Rédea curta
A égua
Trota
No ar.


IX

Carte du Tendre

Mapas terrestres
Rotas caminhos
Pés calçados
Ao rés do chão
Desequilíbrio dos saltos
As quedas em si.
…
2000 mil léguas.
O mundo vário, em cada cidade,
um café
a cada esquina, o mendigo da vez
rumos familiares,
quase por obrigação,
a cidade sem carta de ternura.


X

Hotel da vitória,
Como se chega?
Navio no horizonte:
Um sai, outro vem...

Movimento constante:
de profundas camadas
sobem raízes quase
metafísicas


Fores tardam...
Perfazendo um tempo
na distância,
os deuses moucos.


XI

histérica,
o corpo, dor tendão:
lacraia desliza nos ombros
costas, cotovelo...
viagem aguda no limite
do insuportável.

Percurso intensivo
Ligado a fios elétricos
Ondas sonoras de baixa freqüência
Entre geléias, substâncias placentárias
A lacraia sobrevive do intenso e lento deslocar-se.

o tempo...o tempo...
passaporte para o minuto seguinte...precisa ser renovado.


XII

Caderneta de viagem:
Anoto para depois
não ler
As minúcias miosótis
A música deste lado
do sol
Luminosidades
O suor pelas costas
Teu sul
Estrangeira paisagem
Ao norte língua perdida
Retrocesso
Fruto maduro
Inexorável apodrecimento
da polpa de um pêssego.



XIII

Viagem daqui pra lá
Sem entrega
Passo atrás
Passo ao lado
Passo ao largo
Do amor mais puro
Ao mais indesejado
Volto e meia volta
nunca de todo
Ritmo pulsante
Figuro na paisagem
Chego atrasadíssima
Ou cedo demais
Nas gares dos trens.



XIV

Por terrenos baldios de São Paulo

“ nem todos os terrenos estão vazios ou abertos, outros sob cabos de alta tensão, alguns com zonas de bosque intenso, outros de futuro incerto..."

Guia de terras perdidas
Lugares vazios
da cidade,
Barra funda
Terras de ninguém
Coração baldio
Descolonizado
Consolação,
Bela Vista,
Liberdade, Aclimação...
Novos ares
Arranham o céu.

Cidade de São Paulo
Vila Prudente
Prince canta
Purple rain
clima ácido
I don ´t care where you go...
Terrenos desnivelados
Buraco vazio do Metrô
No coração da cidade
Este não conta mais.


XV

Não dorme, dorme, não dorme...
boca aberta espera
tira, põe
Dores esparsas
Faz, desfaz...
Clandestinos abarrotam porões
Com isso e mais aquilo
Roteiros vazios velados
Diário incompleto
Se alguém girasse a manivela
O navio afundava?
O país?

Ela pedia para lembrar do sonho
Pela manhã, lateja o occipital direito
Lóbulo sensível do eterno retorno
A doçura a deixava confusa
Adoçante meio amargo
Certeza nenhuma,
nunca mais se chega ao ponto
de partida.


XVI

Nada dizer a mais
palavras tímidas
na tela de longe
picos de foice, enxada
caminhos, veredas abertas

Viajam na memória...
sem atropelos.


XVII

...
Pressão psíquica em lágrimas
Performance sensível diante do espelho
depressão, euforia, diapasão sem análise....
autocomiseração, luto desfeito na próxima parada,
jogos de cena com o microfone aberto,
crises banais, para câmeras escondidas
amor, gesto ensaiado.


XVIII

Across the universe

Rola e rola…
A não ser um cão vadio
A não ser uma cadela no meio da rua
(entre balas perdidas)
Abanando rabo num tonto
gerúndio pro dono ...

Em terrenos abandonados latas de lixo
Reviradas,
Merda exposta

Nas placas caídas do poste:
Precisa-se de algum amor
(All we need)
E ódio também.
Enquanto Bob Dylan cruza palavras
Com jogos de sentido escuso
Fumar todo o último cigarro
até explodir .... as
moedas de troca.
Saber dar adeus, adios, a deus o de César...


XIX

Terreno neutro
Desce aqui
Hoje

Estação sossego
Mapa aberto sobre os joelhos
Estrangeiros na plataforma

Pensamentos em passos de pomba
Perturbam a espera
Sempre bom guardar um doce pra depois.


XX

Não se percebem mais os limites
entre um e outro
lugar de passagem...
Uso de terapêutica abrasiva...
técnicas medicinais

Sucos de luz com clorofilia exorcizam vampiros ativos, fantasmas,
sob fina camada de mel e requeijão no café da manhã...
Agora teme abraços perigosos
Nervos esgarçados atrás do coração.

Treme só de pensar...
Pessoas inevitáveis
cruzam o caminho

As cartas na Estação Repouso.
A ver...


XXI

Mundos esferas
Sangue passa por veias
Na diluição da vida cotidiana
Nada impede o sortilégio...

Trens noturnos, estação sob forte neblina.
Impossível dizer se embarco
Dependerá de minha fecunda
Imaginação do gosto exagerado do real mais erradio.
Improviso com a metade do que me foi dado ler

Assim um drama.
Palavras olham para fora
Andarilhas perdidas no caminho do sagrado.
Bolhas ardentes nas solas dos pés.


XXII

Da língua, a conversa descai para interrogações
tudo beira
não quis verificar os documentos
sofre bloqueios mentais
(no bolso um frasco para as horas irremediáveis...)
outros tantos motivos
a vida irritável lisa, sem réplica, gasto silencioso.
nada parece perfeitamente adaptável
ao desejo.


XXIIII

Travessia de través...

Histórias parecem banais vistas na seqüência
dos exorcismos dos programas de manhã...
energias desencontradas faceiam a borda do Parque Solidão
Sob reflexos ruivos, uma mulher chora à beira de si própria
Por que me olhou com olhos de bebê?


XXIV

A viagem começa
na festa de despedida.
Quando
portas se abrem...
No fim
quando
tudo termina
assunto encerrado
palavras engolidas
acenos.
Na festa de despedida,
a viagem começa
sem plano piloto
sem bússola
sem guia turístico.
A viagem começa
quando
a música termina
os instrumentos guardados
alguém acende o cigarro derradeiro.
A viagem começa
no término
quando malas
desfeitas
lembranças, quinquilharias
tudo vai no lixo.
A viagem quando
a memória apaga, deleta.
A viagem no primeiro passo
depois do último
o mundo por vir.
Quando
Passado, lacre.
Viagem começa
no selo
da carta.
No remate de males.
começa
no tiro de misericórdia.
Póstumo,
no terminado,
no tudo acabado.

Então começa a viagem.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

por Ana Chiara


Pânico e trauma. Os
relógios saltam dos gonzos.
Arrumo flores rezo
pelo instante como se
nunca acabasse
se nada.
Cuido,
não posso
deixar nosso amor.


03/08/2010

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Bugigangas

por Ana Chiara


Penso, (meço),

a decadência das pernas no Leblon.

Pecados expostos nas esquinas,

bugigangas triviais



coração mudo arrasando nos museus



Penso, (peço) ,

médico hipnotizador

modos lentos de centopéia.



Mamangavas, mordidas, ardências


Camelôs como psicanalistas,


ali no livro, se sair do labirinto, Ariadne, te escrevo.



agosto, 2010




(mamangava)